—É onde se vê a educação de uma pessôa é na musica. Eu adoro a musica! É por excellencía a arte sublime! Mas espera… eu conheço esta cara não sei d'onde?! e ficou-se a fitar a filha franzidamente… Não ha duvida! Não me engano. A rapariguita ergueu os olhos pra elle e outra vez muito ruborizada fez com cabeça que sim. Bem lhe queria parecer ao senhor Barbosa que não lhe era extranha aquella cara. Era justamente ahi, na engomadoria.
—Mas não é porque ela precise, dizia a mãe com um felizmente, é pra se aperfeiçoar na arte a que ela se dedica.
—A que arte se dedica sua filha, minha senhora?
—Arte de engomadeira.
—Ah! sim, fez o senhor Barbosa e poz-se a meditar a complexidade de passar a ferro.
Comtudo a mãe fez-lhe ver que a grande vocação d'ella era a musica, que aquillo era só ir ao theatro e cantar tudo, tudo, no dia seguinte desde manhã até à noite. Visto isto o senhor Barbosa não poderia permitir que ela esmurecêsse da sua grande vocação e como o primo d'êle era ministro do fomento e tinha muitas relações no meio theatral podiam, contar com o primo que era o coração mais bem feito de todo o mundo. Portanto que apparecessem lá no escritorio a qualquer hora e quando quizessem porque lhe davam imenso prazer mas que não fôssem lá de quínta-feira que vem até á outra quinta-feira seguinte porque se esperavam barulhos para esses dias.
+III+
Dos domingos não gostava—sentia uma coisa que era amarello pra dentro e pra fóra que era sujo. E as portas das Egrejas fechadas depois do meio dia tinham a tristeza do que já não ha mais. Reparava que esta coisa das mercearias abertas com gente lá dentro a aviar-se, e creadas de pantufas d'ourêlo co'a garrafa do petroleo e um senhor de côco que comprou phosphoros de cêra, tudo lhe era preciso na alma e não sabia porquê mas sentia-o. E hoje, se não fôsse a estreia das botas de cano alto, teria ficado na cama com certeza.
A Avenida já tinha immensa gente, d'esta que só se vê na Avenida. E ella sentada na primeira fila de cadeiras a desenfiar um a um os pinhões descascados da mulher do capilé pôz-se a rir pra si de si propria por ter pensado que a musica talvez fôsse mais bonita se os musicos da guarda republicana não tivessem o chapeu na cabeça. Dois rapazes bem vestidos pararam defronte d'ella voltados pró corêto e um d'elles enthusiasmado esticou um dêdo e o braço em direcção á musica: Ouviste a tal nota que eu te dizia?… Não achas bestial de boa? e como o outro tivesse dito effectivamente fazendo co'a cabeça muitas vezes que sim, ella ficou muito espantada a destrinçar aquella celebridade musical apesar dos tacões comidos; e quando elles já iam mais abaixo poz-se a procurar na musica uma outra nota que ella tambem achasse que fôsse bestial de boa. N'esta altura uma mão foi buscar a mão d'ella que estava em cima d'um joelho e voltando-se p'rá direita ouviu a musica acabar nos olhos contentes do senhor Barbosa que estava admirado de a vêr por alli. Ella ficou um nada compromettida com a impressão de que estava a ouvir os Sinos de Corneville tocados por um barbeiro cuja flauta fôsse a navalha de barba e o senhor Barbosa julgando-a ruborizada por causa dos pinhões que ficaram na mão d'elle depois de a cumprimentar sorriu-se e metteu-os á uma na bôcca o que queria dizer mais alguma coisa.
—A sua mamã? Ella ia pra responder mas felizmente…: Quantos logares deseja V. Ex.^a? o senhor Barbosa disse um, mas voltou-se para ella e como já tivesse, disse outra vez um e que guardasse o resto para elle.