—Foi ela! gritaram todas de braços estendidos na mesma direcção, e um gallo que tinha na testa tambem tinha sido ela mas de proposito. Ela não disse nada, levantou a saia tirou do bôlso da saia de baixo um rato pôdre muito bem embrulhado e pegando-lhe p'lo rabo até muito perto da luz gritou indignada co'aquela evidencia prá senhora é pró patrão: era o meu lunch! e voltando-se para elas atirou-o violentamente à cara d'uma, que todas eram a mesma, e rematou vingativamente… agora é que fui eu! E se não fôsse o patrão não tinha sido apenas aquella mancheia de cabellos… era mas era a cabeça toda, minha… e foi uma enfiada de nômes baixos, que nem se dizem a uma mulher das mais ordinarias. E pra que ela visse bem que não era pra brincadeiras fez um pequeno silencio e disse, mas muito a serio: sua thalassa!
—E com muita honra! e fez-lhe frente. As outras deram uma gargalhada descommunal e a que riu mais observou: E 'inda o confessa! Ah! Ah! Ah!… mas ela vingou-se em chamar-lhes republicanas.
Entretanto a senhora tinha já endireitado o abat-jour emquanto o patrão fazia de fronteira entre as inimigas, mas isto é que de maneira nenhuma podia ficar assim!
Acabou de arranjar as ultimas calças da hespanhola pra concluir o seu serão, pediu ao patrão pra fazer contas com ela, pôz a mantilha despreocupadamente e quando já estava pronta e na rua virou-se pra dentro e acompanhou de um gesto indisciplinado um sincerissimo viva à Monarchia!
+II+
Ir ao barbeiro é um dever tão penoso como assistir aos Sinos de Corneville representado pelos velhinhos do Asylo de Mendicidade. Apesar disto o senhor Barbosa pedia a barba bem escanhoada porque depois do jantar ia ao Asylo de Mendicidade ouvir os velhinhos cantar os Sinos de Corneville e que o Presidente da Republica tambem ia. E depois de ter esboçado ao barbeiro o argumento da peça disse-lhe que gostava imenso da musica mas pó d'arroz na cara, não!… que não era d'esses!
—Bem me queria parecer, disse com grande contentamento um velhote com oculos de aros de tartaruga, depois de ter consultado por muito um envelope todo escrevinhado, e chegando-se perto do senhor Barbosa com uma palmadinha no hombro: tambem temos os Sinos de Corneville e mandou o oficial dar à manivela do gramofone que ele é que lá sabia d'esses engenhos.
Quando o disco se gastou o senhor Barbosa disse com um A! ao oficial que Wagner foi um grande musico mas que ele tinha-o escanhoado pouco por debaixo do queixo.
N'esta altura a porta entreabriu-se e uma cabeça de senhora de chapeu pedia licença, se podia entrar. É porque estava muito farta de andar a pé, os electricos não andavam, e porque gostava muito dos Sinos de Corneville e que até daria qualquer gratificação mas propunha como condição que deixassem entrar tambem a filha que estava lá fóra, coitadinha. Foram todos lá fóra buscar a filha. O senhor Barbosa é que foi dar á manivela depois de a ter visto e não se poude conter sem accender um charuto com cinta d'oiro que queria guardar prá saída do espectaculo. Só quando estava quasi a acabar de o fumar é que se lembrou de preguntar se as incommodava o fumo. Que não, mas visto isso era altura de preguntar à filha se tambem gostava dos Sinos de Corneville porém ela ficou toda encarnada, abaixou os olhos e a cabeça e começou a contar segundos com o pé direito. A mãe é que disse que ela tambem gostava e que tambem estava cançada por causa dos electricos não andarem. E como nem a mãe nem a filha tivessem assim grandes desejos de conversar o senhor Barbosa já se estava arrependendo de ter accendido o charuto.
—Ai que lindo, filha! disse a mãe quando acabou o disco. O senhor Barbosa voltou-se e aconselhou-a, então pra que não perdêsse a soirée no Asylo de Mendicidade, porque merece a pena e não é assim uma coisa que se possa ver todos os dias… só de quando em quando. A ultima vez, dizia o senhôr Barbosa, que tinha sido ha mais de um anno e por acaso no mesmo Asylo de Mendicidade, e continuava crescente: