E sômos. Temos esta elegancia, esta devoção, este farol da Fé.
Lisboa 16 de Novembro 1917._
+Em todos os meus trabalhos eu guardo esta pagina para dizer o orgulho de ter como Mestre M.^me Sonia Delaunay-Terk.+
+I+
Um dia a mãe comprou chapeu pra ir em pessôa pedir à dôna da engommadoria que não deixásse a filha passar a ferro as ceroulas dos homens porque parecia mal a uma menina decente. D'aqui a chacota endiabrada das outras que a não deixavam e até lhe chamavam o Quêlhas. E eram empuxões e risotas e pisadellas a fingir sem querer e um dia até lhe descoseram a saia. E tambem não suportavam que os que espreitavam na rua olhassem mais pra ela quando já estava resolvido entre todas as engomadeiras que ela era a mais feia. E a parva parece que não via nada, que estava a dormir! Era o parvo do Mendes, era o estupido do Alves e até o senhor Anastacio! eram todos, e ela… nada! Então ela não foi dizer à senhora que o patrão lhe tinha oferecido uma carta?! que parva!… Aquillo só co'o ferro por aquelles olhos! Ná! não podia continuar assim! Nem ela nem as mais (e por causa d'ella!) já passa da medida! Mata-se a idiota!
Ela ouvia, ouvia tudo naquelle esforço de não querer ouvi-las, ás malcriadas.
Ainda desconfiáram d'algum amante que a sustentasse, algum palerma que lhe désse as coisas… mas no dia em que descalças a espreitaram da escada troçaram d'ela e do gato a brincarem juntos em cima da cama. Concordaram: não póde ter amante—ainda tem o fato do anno passado e as botas, as botas fôram do pae com certeza. E o lunch é sempre a mesma laranja com um pedaço de queijo metido num pão tão reles que nem podia chamar-se sanduwish… portanto, a parva já não dava. A bêsta! A bêsta sim, a bêsta é que era!
E todos os dias eram queixas e mais queixas por causa da lama d'aquellas chancas, por causa das cascas da laranja e porque soprou o ferro pra cima das calças da hespanhola e porque deu pronta uma camisa do senhor doutor que era uma indecencia de engelhada e até porque cheirava mal, sempre não, mas de vez em quando.
No dia da revolução fôram dizer a um marujo que ela era thalassa, que até usava bentinhos e Senhoras da Conceição e ela, coitada, teve que pedir de joelhos. Verdadeiramente ela sentia uma sympathia muito grande pela causa monarchica desde que um dia as outras todas se confessaram democraticas ao policia de serviço quando lá foi pedir um copo d'agua do contador. Mas agora, não! Agora não tinha politica; tinha era mêdo de morrer.
Um serão tinha guardado o lunch prá noite, foi abri-lo era um rato pôdre e as outras dançaram um vira expontaneo. Comprehende-se: a senhora tinha ido ao cinematografo co'o patrão. Quando voltaram extranharam aquelle silencio e a luz do gaz muito sumida co'o abat-jour todo prá esquerda.