Havia uma cruz na encruzilhada.
A cada um que passava dizia o Christo de pedra:
«Em vez de ter morrido n'uma cruz, por ti, antes tivesse pegado na lança que me abriu o peito, para com ella te rasgar os olhos da cara. Para deixar entrar claridade para dentro de ti pelos buracos dos teus olhos rasgados.
«Tudo quanto eu te disse ficou escrito e é tudo ainda hoje tenho para te dizer.
«Se me fiz crucificar para t'o dizer porque não te deixas crucificar para sabêres como eu t'o disse?
«Não posso, por mais que tente, livrar uma das mãos, pregaram-m'as bem, como se prega um crucificado; não posso, por mais que tente, livrar uma das mãos, para te sacudir a cabeça quando viéres ajoelhar-te aqui aos pés da minha cruz.
«Se fôsse o teu orgulho de joelhos, ainda era o teu orgulho, mas são as tuas pernas dobradas com o pezo do ar.
«Não tenho uma das mãos livre para te empurrar d'aqui da minha cruz até ao teu logar lá em baixo na terra.
«Levanta-te, homem! No dia em que tu nascêste, nasceu no mesmo dia um logar para ti, lá em baixo na terra. Esse logar é o teu! o teu logar é a tua fortuna! o teu logar é a tua gloria. Não deixes o teu logar vazio, nem te deixes pr'áhi sem logar.
«Não te aleijes a procurar outras fortunas que não terás,—ha uma só para ti—é a unica que ha para ti, não serve senão para ti, não serve para os outros,—é por isto que ella é a tua fortuna!