A ALVARO DE CAMPOS
Excerptos de um poema desbaratado que foi escripto durante os três dias e as três noites que durou a revolução de 14 de Maio de 1915.
Satanizo-Me Tara na Vara de Moysés!
O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu cantar!
Sou Vermelho-Niagára dos sexos escancarados nos chicotes dos cossacos!
Sou Pan-Demonio-Trifauce enfermiço de Gula!
Sou Genio de Zarathustra em Taças de Maré-Alta!
Sou Raiva de Medusa e Damnação do Sol!
Ladram-Me a Vida por vivê-La e só me deram Uma! Hão-de lati-La por sina! agora quero vivê-La! Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina! Hei-de Gloria desannuviá-La! Hei-de Guindaste içá-La Esfinge da Valla commum onde Me querem rir! Hei-de trovão-clarim levá-La Luz ás Almas-Noites do Jardim das Lagrymas! Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia nos Funeraes de Mim! Hei-de Alfange-Mahoma cantar Sodoma na Voz de Nero! Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre, hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido…, hei-de ser Attila, hei-de Nero, hei-de Eu, cantar Attila, cantar Nero, cantar Eu!
Sou throno de Abandono, mal-fadado, nas iras dos barbaros, meus Avós. Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina gemidos vencidos de fracos, ruidos famintos de saque, ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga! Sou ruinas razas, innocentes como as azas de rapinas afogadas. Sou reliquias de martyres impotentes sequestradas em antros do Vicio e da Virtude. Sou clausura de Sancta professa, Mãe exilada do Mal, Hostia d'Angustia no Claustro, freira demente e donzella, virtude sosinha da cella em penitencia do sexo! Sou rasto espesinhado d'Invasores que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o. Sou a Raiva atavica dos Tavoras, o sangue bastardo de Nero, o odio do ultimo instante do condemnado innocente! A podenga do Limbo mordeu raivosa as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo… Ah! que eu sinto, claramente, que nasci de uma praga de ciumes! Eu sou as sete pragas sobre o Nylo e a Alma dos Borgias a penar!
E eu vivo aqui desterrado e Job da Vida-gemea d'Eu ser feliz! E eu vivo aqui sepultado vivo na Verdade de nunca ser Eu! Sou apenas o Mendigo de Mim-Proprio, orphão da Virgem do meu sentir.
(Pezam kilos no Meu querer
as salas-de-espera de Mim.
Tu chegas sempre primeiro…
Eu volto sempre amanhã…
Agora vou esperar que morras.
Mas tu és tantos que não morres…
Vou deixar d'esp'rar que morras
—Vou deixar d'esp'rar por Mim?!…)
Ah! que eu sinto, claramente, que nasci de uma praga de ciumes! Eu sou as sete pragas sobre o Nylo e a Alma dos Borgias a penar!
Hei-de, entretanto, gastar a garganta a insultar-te, ó bêsta! Hei-de morder-te a ponta do rabo e pôr-te as mãos no chão, no seu logar! Ahi! Saltímbanco-bando de bandoleiros nefastos! Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade! Ahi! Espelho-aleijão do Sentimento, macaco-intruja do Alma-realejo! Ahi! maquerelle da Ignorancia! Silenceur do Genio-Tempestade! Spleen da Indigestão! Ahi! meia-tijella, travão das Ascensões! Ahi! povo judeu dos Christos mais que Christo! Ó burguezia! ó ideal com i pequeno! Ó ideal rocócó dos Mendes e Possidonios! Ó cofre d'indigentes cuja personalidade é a moral de todos! Ó geral da mediocridade! Ó claque ignobil do vulgar, protagonista do normal! Ó catitismo das lindezas d'estalo! Ahi! lucro do facil, cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos! Ahi! dique impecilho do Canal da Luz! Ó coito d'impotentes a corar ao sol no riacho da Estupidez! Ahi! Zero-barometro da Convicção! bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais! Ahi! plebeismo aristocratisado no preço do panamá! erudição de calça de xadrez! competencia de relogio d'oiro e corrente com suores do Brazil e berloques de cornos de buffalo!
Zutt! bruto-parvo-nada que Me roubaste tudo: 'té Me roubaste a Vida e não Me deixaste nada! nem Me deixaste a Morte! Zutt! poeira-pingo-microbio que gemes pequenissimo gemidos gigantes, gravido de uma dôr profeta colossal! Zutt! elefante-berloque parasita do não presta! Zutt! bugiganga-celluloide-bagatella! Zutt! bêsta! Zutt! bácoro!! Zutt! merda!!!