E tu, tambem, vieille-roche, castello medieval fechado por dentro das tuas ruinas! Fiel epitaphio das cronicas aduladoras! E tu tambem, ó sangue azul antigo que já nasceste co'a biographia feita! Ó pagem loiro das cortezias-avozinhas! Ó pergaminho amarello-mumia das grandes galas brancas das paradas e das victorias dos torneios-loterias com donzellas-glorias! Ó resto de sceptros, fumo de cinzas! Ó lavas frias do vulcão pyrotechnico com chuvas d'oiros e cabeleiras prateadas! Ó estilhaços heraldicos de vitraes despegados lentamente sobre o tanque do silencio! Ó cedro secular debruçado no muro da Quinta sobre a estrada a estorvar o caminho da Mala-posta!
E vós tambem, ó Gentes de Pensamento, ó Personalidades, ó Homens! Artistas de todas as partes, cristãos sem patria, Christos vencidos por serem só Um! E vós, ó Genios da Expressão, e vós tambem, ó Genios sem Voz! Ó alem-infinito sem regressos, sem nostalgias, Espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos! Prophetas cladestinos do Naufragio de Vossos Destinos!
E vos tambem, theoricos-irmãos-gemeos do meu sentir internacional! Ó escravos da Independencia!
E tu tambem, Belleza Canalha co'a sensibilidade manchada de vinho! O lyrio bravo da Floresta-Ardida á meia-porta da tua Miseria! Ó Fado da Má-Sina com illustrações a giz e lettra da Maldição! Ó féra vadia das viellas açaimada na Lei! O chale e lenço a resguardar a tysica! Ó franzinas do fanico co'a syphilis ao collo por essas esquinas! Ó nu d'aluguer na meia-luz dos cortinados corridos! Ó oratorio da meretriz a mendigar gorgetas pr'á sua Senhora da Boa-Sorte! Ó gentes tatuadas do calão! Ó carro vendado da Penitenciaria!
E tu tambem, ó Humilde, ó Símples! enjaulados na vossa Ignorancia! Ó pé descalço a callejar o cerebro! Ó musculos da saude de ter fechada a casa de pensar! Ó alguidar de assôrda fria na ceia-fadiga da dôr-candeia! Ó esteiras duras pr'a dormir e fazer filhos! Ó carretas da Voz do Operario com gente de preto a pé e philarmonica atraz! Ó campas razas engrinaldadas, com chapões de ferro e balões de vidro! Ó bota rôta de mendingo abandonada no pó do caminho! Ó metamorphose-selvagem das feras da cidade! Ó geração de bons ladrões crucificados na Estupidez!
Ó sanfona-saloia do fandango dos campinos!
Ó pampilho das Lezirias innundadas de Cidade!
E vós varinas que sabeis a sal e que trazeis o Mar no vosso avental!
E vós tambem, ó moças da Provincia que trazeis o verde dos campos no vermelho das faces pintadas.
E tu tambem ó mau gosto co'a saia de baixo a vêr-se e a falta d'educação! Ó oiro de pechisbegue (esperteza dos ciganos) a luzir no vermelho verdadeiro da blusa de chita! Ó tedio do domingo com botas novas e musica n'Avenida! Ó sancta Virgindade a garantir a falta de lindeza! Ó bilhete postal illustrado com apparições de beijos ao lado!
Ó Arsenal-fadista de ganga azul e côco socialista!
Ó sahidas pôr-do-sol das Fabricas d'Agonia!