E vós tambem, nojentos da Politica que exploraes eleitos o Patriotismo! Maquereaux da Patria que vos pariu…
E vós tambem, pindericos jornalistas que fazeis cocegas e outras coisas á opinião publica!
E tu tambem, roberto fardado: Futrica-te espantalho engalonado, apeia-te das patas de barro, larga a espada de matar e põe o penacho no rabo! Rálha-te mercenario, asceta da Crueldade! Espuma-te no chumbo da tua Valentia! Agoniza-te Rilhafolles armado! Desuniversidadiza-te da doutorança da chacina, da sciencia da matança! Groom fardado da Nêgra, pária da Velha! Encaveira-te nas espóras luzidias de sêres fera! Despe-te da farda, desenfia-te da Impostura, e põe te nu, ao léu que ficas desempregado! Acouraça-te de Senso, vomita de vez o morticinio, enche o pote de raciocinio, aprende a lêr corações, que ha muito mais que fazer do que fazer revoluções! Rebusca no sêres selvagem, no teu cofre do exterminio o teu calibre maximo! acaba de vez com este planeta, faze-te Deus do Mundo em dar-lhe fim! (Ha tanta coisa que fazer, Meu Deus! e esta gente distrahida em guerras!)
Olha os que não são nada por te cantarem a ti! tantos mundos! tantos genios que não fizeram nada, que deixaram este mundo tal qual! Olha os grandes o que são, estragados por ti! E de que serve o livro e a sciencia se a experiencia da vida é que faz comprehender a sciencia e o livro? Antes não ter sciencias! Antes não ter livros!
Larga a cidade masturbadora, febril, rabo decepado de lagartixa, labyrintho cego de toupeiras, raça de ignobeis myopes, tysicos, tarados, anemicos, cancerosos e arseniados! Larga a cidade! Larga a infamia das ruas e dos boulevards, esse vae-vem cynico de bandidos mudos, esse mexer esponjoso de carne viva, esse sêr-lêsma nojento e macabro, essess zig-zag de chicote auto-fustigante, esse ar expirado e espiritista, esse Inferno de Dante por cantar, esse ruido de sol prostituido, impotente e velho, esse silencio pneumonico de lua enxovalhada sem vir a lavadeira!
Larga a cidade e foge! Larga a cidade! Mas larga tudo primeiro, ouviste? Larga tudo! —Os outros, os sentimentos, os instinctos, e larga-te a ti tambem, a ti principalmente! Larga tudo e vae para o campo e larga o campo tambem! —Põe-te a nascer outra vez! Não queiras ter pae nem mãe, não queiras ter outros, nem Intelligencia! E já houve Intelligencia a mais: pode parar por aqui! Depois põe-te a viver sem cabeça, vê só o que os olhos virem, cheira os cheiros da Terra, come o que a Terra dér, bebe dos rios e dos mares, —põe-te na Natureza!
Mas tu nem vives, nem deixas viver os mais, Crápula do Egoismo, cartola d'espanta-pardaes! Mas has-de pagar-Me a febre-rodopio novêllo emmaranhado da minha dôr! Mas has-de pagar-Me a febre-calafrio abysmo descida de Eu não querer descer! Has-de pagar-Me o Absyntho e a Morfina! Hei-de ser cigana da tua sina! Hei-de ser a bruxa do teu remorso! Hei-de desforra-dôr cantar-te a buena-dicha em aguas-fortes de Goya e no cavallo de Troya e nos poemas de Poë! Hei-de feiticeira a gallope na vassoira largar-te os meus lagartos e a Peçônha! Hei-de vara magica encantar-te arte de ganir! Hei-de reconstruir em ti a escravatura nêgra! Hei-de despir-te a pelle a pouco e pouco e depois na carne viva deitar fel, e depois na carne viva semear vidros, semear gúmes, lúmes, e tiros! Hei-de gosar em ti as póses diabolicas dos theatraes venenos tragicos da persa Zoroastro! Hei-de rasgar-te as vrilhas com forquilhas e croques, e desfraldar-te nas canellas mirradas o nêgro pendão dos piratas! Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vêsgos! Hei-de boia do Destino ser em braza e tu naufrago das galés sem horizontes verdes!
Ah que eu sinto claramente que nasci de uma praga de ciumes! Eu sou as sete pragas sobre o Nylo e a alma dos Borgias a penar!
End of Project Gutenberg's A Scena do Odio, by José de Almada Negreiros