Sá-Carneiro era um esteta de ritmos prismáticos, em que a luz se decompunha em florescências decadentes e subtis. Era por assim dizer, uma bandeira heráldica, oirescente e escandalosa.

Fernando Pessoa toma para si o papel de mentor intelectual.
Há sempre um sentido oculto nas suas criações literárias.
Sempre lhe preside uma ideia. Sempre procura opor ao que está
uma filosofia, uma mentalidade ou até uma nova humanidade.

Santa Rita figura de precursor, e como tal, é um impulso que se deixa de realizar em si para se realizar nos outros.

Almada é a trombeta do cortejo. Salta à frente, com este estridente manifesto literário, em que o escândalo rebenta por todas as linhas, salta à frente com teatralidade dos seus gestos, dos seus gritos e dos seus atentados ao gosto e aos hábitos do senhor-toda-a-gente, hábitos de trajar, de pensar, de fazer versos, de ser funcionário público e de ter descendência linfática.

Destapa a careca dos burgueses, ri-se da sua literatura sem noviade, sem imaginação, hipócrita e probremente sexual, do seu lirismo requentado, da sua política de labita, do seu jornalismo sem agitação, da sua arte andrajosa e quase-litográfica, da sua moral caricata, amarrada estreitamente ao cadáver dum mundo que se afundava na cova, ruído de reumatismo.

É, em resumo, o gaiato sublime, que puxa a penca ao respeitável conselheirismo nacional e grita à plebe boquiaberta: o Rei vai nu!

Este manifesto, sublinha a revolta dos homens do século XX contra uma formação intelectual que não só não acompanhava as novas gerações nas suas inquietações como pretendia, ainda, continuar de costas para o Futuro, a impor, imperturbàvelmente, a lei seca a um país sequioso de espírito novo.

É, por isso, um documento cujo valor ultrapassa o seu tempo. E pertence, por direito natural, a todas as gerações que vierem para a Vida com a sacrílega e humana ambição de Prometeu.

Petrus

[Nota do Transcritor: Aqui surge uma ilustração.]