Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a mutilação moral.
Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança. Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia, quem a desfolhara.
Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a submergiam.
[XVII]
Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina.
Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.
Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem confusa de seus pensamentos.
Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça, escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente desejavam.
O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso forçado:
—Elle tem razão!