—Amar, é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é estudar a lei da creação em seu mais profundo mysterio, a mulher. Amar é admirar o bello em sua mais esplendida revelação; é fazer poemas e estatuas como nunca as realisou o genio humano.

Mas o que sentia Horacio era apenas o culto da fórma, o fanatismo do prazer. O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mutua de duas almas; e essa, póde o homem illudir-se alguma vez, mas quando se realisa é indissoluvel.

Nada separa duas almas gemeas que prende o vinculo de sua origem divina.

O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, elle procurava um typo. Durante dez annos atravessára os sallões, como uma galeria de estatuas animadas e vivos paineis, parando um instante em face dessas obras primas da natureza.

Vieram uns após outros todos os typos; a belleza ardente das regiões tepidas, ou suave gentileza da rosa dos Alpes: o moreno voluptuoso ou a alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; o talhe opulento e garboso ou as fórmas esbeltas e flexiveis.

Seu gôsto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difficil. A belleza commum já não o satisfazia; era preciso a obra prima para excitar-lhe a attenção e commovel-o.

Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura cahiram na monotonia. Já o leão não sentia pela mais bella mulher aquelles enthusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo como o de um critico.

Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar a mulher em detalhe. Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a principio uma boca bonita, cofre de perolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veiu depois uma trança densa e negra, como a asa da procella que se inflamma. Uma cintura de sylphide, um collo de cisne, um requebro seductor, um signal da face, uma graça especial, um não sei que; tudo recebeu culto do nosso leão.

Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua alma babujava na salla essas golosinas. Mas afinal embotou-se; e o prazer não foi para ella mais do que a vulgar satisfação de um habito.

O moço cortejava as senhoras como uma occupação indispensavel á sua vida, como o desempenho da tarefa diaria; mas sem a menor commoção.