De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do Ouvidor passou por elle; era o coupé do Salles. O rosto encantador de Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do postigo.
Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava naturalmente ordem para abrir.
Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo, afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo consideral-a impossivel.
Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella parada do carro, e não se enganava.
—Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.
—Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha.
—Ficou atraz.
—Podemos ir a pé.
Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha.
As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o.