Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as zombarias do mundo.
Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.
Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual dependia a felicidade da filha.
Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher, comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava extremecidamente, morreu ignorando o segredo.
Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.
A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar de seus 18 annos, seus pés eram de menina.
Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do vestido.
Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva. Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu intento.
Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda, Laura esqueceu a sua.
Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da prima, chegava a invejar o seu infortunio.