Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo.
Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas, caprichosamente recortadas.
O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da rua.
Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do espirito.
Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos?
A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
—Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu coração?
As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar, que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem, deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel.
—Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz! Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella.
Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens; ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal, em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.