O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como estylete para feril-a no coração.
Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça.
[V]
Estava a subir o panno.
Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente, apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar. Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante cavalheiro.
Era Horacio.
O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da vaidade, como o outro era da innocencia.
A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria debuxar no quadro illuminado do camarote.
A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice abandonava-se ao olhar do mancebo.
Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão; embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno desconhecido.