—Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi.
—Viste sim!
—Mas não reparei n'uma cousa!...
—Em que!
—Uma cousa. Depois direi.
Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro que chegasse até o portão do Passeio Publico. As senhoras desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado ao seu.
Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do Passeio Publico. Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que derreado sobre a almofada não se movêra.
A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade.
Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da Quitanda; não havia duvida.
O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção.