«Pois luz e espirito não eram a essencia da alma de Amelia? Quando essa alma a vestia com uma tunica resplandecente, que mulher se lhe podia comparar em lindeza? Então não era sómente formosa, fluctuava em um ether de belleza deslumbrante.
«Mas ella não é feia, é aleijada!...»
Um soluço afogou as tristes locubrações do mancebo. Elle repassou outra vez na mente as circumstancias de sua triste descoberta; quiz duvidar, combateu pertinazmente sua propria razão que lhe apresentava a realidade, e afinal succumbiu, curvando-se á implacavel certeza. Tinha visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe offerecera occasião de apalpar a verdade, e saciar-se della.
—Não se admira a Venus de Milo, uma estatua mutilada? dizia o mancebo reluctando contra sua viva repugnancia. Não se admira o primor da arte grega, apezar de não restar della mais do que uma cabeça e um torso de mulher? Essa bellesa truncada não vale a belleza aleijada? A mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade?
A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse pensamento consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as argucias do coração:
—A estatua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a copia integral da belleza que lhe servia de typo; mas um fragmento apenas dessa copia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento, recompõe o ideal do artista. Admira-se a Venus de Milo, como se admira um esboço não acabado de Raphael; como se admira a petala de uma rosa, arrancada da corolla. Mas, fosse embora aquelle primor da estatuaria a reproducção exacta de uma mulher. A mutilação respeita a bellesa; o aleijão a deturpa. Si a mulher que se ama perdesse um pé seria desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é repulsiva.
Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões:
—Infelizmente assim é. Mas por que ha de ser assim? A mutilação é um facto humano; o aleijão é um facto natural. Essa aberração do principio creador, esse desvio da fórma primitiva, indicam sem duvida um vicio na essencia do organismo. Não se tem verificado que nos corpos mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da intelligencia. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não denota eiva tão profunda do espirito, é certo, mas revela que a alma não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão.
O resultado destas cogitações era a gotta de fel esprimido, que ia filtrando á pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as doces reminiscências dos ultimos dias. Leopoldo convenceu-se que não devia amar a desconhecida; mas, ao contrario, arrancar de sua alma os germens da paixão nascente.
Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de suas desgraças de familia, esteve a lembrar-se de algumas antigas relações. Veio-lhe o desejo de cultival-as de novo. Um instincto lhe dizia que para gastar as primicias de um coração virgem, não ha como o attrito do mundo.