—Oh! muito!...
Viera-lhe nessa occasião o mesmo impeto que sentem de ordinario os amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da mulher que os faz soffrer. É uma reacção natural do coração. Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de offendel-a. A culpa de amal-a era sua; e não della.
Aproveitou um momento de distracção da dona da casa, para tomar o chapéo, e esquivar-se, sem que o percebessem.
Amelia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na porta por onde acabava o moço de sahir. Quando, passado um instante, cahiu em si, ficou sorprendida. Que tinha ella com aquelle desconhecido?
Ao chegar, vendo o rosto pallido e os olhos profundos, que tão desagradavel impressão haviam deixado em seu espirito, a moça havia sentido um máo estar intimo. Vinha com a alma cheia das primeiras delicias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de Horacio. A presença de Leopoldo foi um travo.
Mas tambem para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando Horacio?
Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça queria gozar de seu triumpho, e vêr humilde e abatido a seus pés o rei da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada, tornar-se difficil e esquiva, embora lhe custasse o sacrificio dos momentos agradaveis que podia passar junto de Horacio.
A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incommodára, e entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausencia do mancebo.
A principio havia ali uma pessoa de mais; agora faltava alguma cousa. Si não era um homem; era uma curiosidade, uma emoção.
—Amelia!