—O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que lhe deitava quando a senhora chegou!

—Então foi de paixão que elle fugiu?

—Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em outros para chorar. Ha namorados que perseguem, e outros que fogem!

Amelia julgou prudente desviar a conversa daquelle assumpto escabroso, no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade já desvanecida.

[IX]

Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em casa de D. Clementina.

Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.

Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.

—Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de mortos, a presa dos vermes ou das chammas.

Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D. Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava, pois, encontrar Amelia.