—Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro.

—Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a resposta.

O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta, confiada a um creado.

Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco riso que trinava em seus labios.

O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação, estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil receios.

Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio mimoso.

Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio, Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era natural.

—Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que não basta ser meu marido para vêr...

Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais.

Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos desencontrados que vibraram na alma da moça.