—Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o amo; mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe?
Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e portanto faltavam treze para a decisão.
—Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não. Está decidido.
[XII]
Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira. Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com a mão o pesinho que elle adorava.
Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.
Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé.
Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára; fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la em casamento no dia seguinte.
—Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.
O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo: