—Esta botina é de moça, e moça em todo o viço da juventude: a sola apenas rosçada junto á ponta, o salto quasi intacto, não estão descrevendo com a maior eloquencia a subtileza do passo ligeiro? Eu sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa, como disse o poeta; a deusa, a Venus deste olympo em que vivemos, a mulher. Só quando toda a seiva se precipita para o coração, quando germinam os botões que mais tarde abrirão em flôr, só nesse momento de assumpção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o andar do passarinho, que, rosçando a relva, sente o impulso das asas; é o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do anjo, que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céo; é, finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os effluvios do amor, do amor unico ambiente do coração!
Nisto o moço descobriu na fivella do laço da botina alguma cousa que lhe excitou vivo reparo; chegando-se á luz, viu as voltas de um fio, que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de leão da moda. Com alguma paciencia retirou um longo cabello castanho, e muito crespo.
—Outra prova de que aliás não carecia! Este cabello é de mulher; não ha menina que o possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um arbusto! Tem o cabello castanho e crespo, duas cousas lindas sem duvida, embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de côrvo. Esse negrume dá á mulher, o quer que seja de satanico; lembra que ella tambem gerou-se da terra; não é anjo sómente; não é sómente filha do céo. Eu não posso supportar a mulher-seraphim, que parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.
Horacio voltou a botina.
—Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma côr insipida de cabello! Que me importa isto? Tenho alguma cousa com seu cabello? O que amo nella é o pé; este pé sylpho, este pé anjo, que me fascina, que me arrebata, que me enlouquece?...
Horacio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina, inclinou-se e beijou-a no rosto; mas timida e respeitosamente. Não era essa a imagem do pé seductor, que elle adorava como um idolo?
—Mas onde encontral-o? como reconhecêl-o? exclamou dolorosamente Horacio, sentindo a realidade da situação.
Nenhum indicio que lhe revellasse o nome da mulher a quem pertencia essa gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A lembrança vaga da libré de um lacaio era o unico vestigio que restava; mas com este dificilmente poderia descobrir o objecto de sua adoração. Ha tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem! Talvez nunca mais encontrasse aquelle que procurava; e encontrando, nem o reconhecesse.
—Desgraçado! dizia o leão. Quasi nem o olhaste; mas, podias tu adivinhar, Horacio, que thesouro deixára cahir aquelle bruto?
O mancebo inclinára ao peito a bella cabeça esmorecida; a ventura lhe tinha sorrido de longe, para escarnecer delle, o leão mais querido das bellezas fluminenses, o Atyla do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor.