«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda mais.
«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão; bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste, esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma illusão.»
—Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu imaginar uma tal coincidencia!
—É verdade!
Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se.
Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de velludo verde.
—Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.
—Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem.
Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser?
Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois vinha encontral-a desdenhosa e fria.