[XV]
Seriam quatro horas da tarde.
Amelia já vestida para o jantar, esperava o noivo, trabalhando em um bordado de tapessaria. A seu lado em uma linda banca de costura forrada de páo setim, havia, além dos utensilios necessarios, uma profusão de seda frouxa de varias côres.
No setim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o risco de um par de sandalias, que pareciam destinadas á alguma fada, tão pequena, mimosa e delicada era a fórma do pé.
Um dos esboços estava ainda intacto; no outro porém via-se já um florão de rosas bordadas á seda frouxa, e no centro a lettra L., feita com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja tenção a moça trabalhava.
Amelia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação mais seductora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de melancolia, embotava a flôr de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz dos labios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo branco ainda mais ameigava a sua phisionomia.
Não ha para arrebatar os sentidos, como essa languidez da mulher amada. Parece que ella verga com a exhuberancia do amor, como a planta muito viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flôr. O homem querido se regosija, pensando que suas palavras e suas caricias pódem, como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher amada.
Talvez em Amelia não fosse esse desmaio senão o effeito da fadiga do baile, e das scismas da noite mal dormida.
Emquanto bordava, o ouvido da moça attento esperava algum rumor que lhe annunciasse a chegada do noivo. Um carro parou á porta; e momentos depois soaram na sala de visitas os passos de alguem.
Era Horacio.