—Na verdade, possuir um thesouro, um primôr! Admira como sua amiga já não morreu de desgôsto.
—Mas fallando sério; não é natural que uma moça tenha o pé de uma menina de sete annos.
—Não sei si é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Ha certas graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as deusas, são assim.
—Com effeito! Si eu fosse ciumenta!
—De sua amiga?... De uma amiga tão intima?... Era quasi ter ciumes de si mesma! disse Horacio gracejando.
—O que o senhor quer sei eu. É vêr se adivinha.
Horacio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo; menos pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fimbra do vestido. A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da moça reclinada sobre o bastidor, promettia brevemente descobrir o thesouro, tão estremecido pelo mancebo.
Amelia, occupada com seu trabalho, e distrahida com a conversa, se esquecêra daquelle constante cuidado que ella tinha em compôr a orla do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão.
—Mas então essa amiga mysteriosa.... A senhora ia contar uma historia, si não me engano.
—Historia, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o pagamento de uma divida.