Esse primeiro rascunho foi-se com os folguedos{25} da infancia que o viram nascer. Das minhas primicias litterarias nada conservo; lancei-as ao vento, como palhiço que eram da primeira copa.

Não acabei o romance do meu amigo Sombra; mas em compensação de não tel-o feito heróe de um poema, coube-me, vinte sete annos depois, a fortuna mais prosaica de nomeal-o coronel, posto que elle dignamente occupa e no qual presta relevantes serviços á causa publica.

Um anno depois parti para S. Paulo, onde ia estudar os preparatorios que me faltavam para a matricula no curso juridico.

V

Com a minha bagagem, lá no fundo da canastra, iam uns quadernos escriptos em lettra miuda e conchegada. Eram o meu thesouro litterario.

Alli estavam fragmentos de romances, alguns apenas começados, outros já no desfecho, mas ainda sem principio.

De charadas e versos nem lembrança. Estas flores ephemeras das primeiras aguas tinham passado com ellas. Rasgara as paginas dos meus canhenhos e atirara os fragmentos no turbilhão das folhas seccas das mangueiras, á cuja sombra folgara aquelle anno feliz de minha infancia.{26}

Nessa epocha tinha eu dois moldes para o romance.

Um merencorio, cheio de mysterios e pavores; esse, o recebera das novellas que tinha lido. Nelle a scena começava nas minas de um castello, amortalhadas pelo baço clarão da lua; ou n'alguma capella gothica frouxamente esclarecida pela lampada, cuja luz esbatia-se na lousa de uma campa.

O outro molde, que me fôra inspirado pela narrativa pittoresca do meu amigo Sombra, era risonho, loução, brincado, recendendo graças e perfumes agrestes. Ahi a scena abria-se em uma campina, marchetada de flores, e regada pelo sussurrante arroio que a bordava de recamos cristalinos.