Tudo isto porem era esfumilho que mais tarde devia apagar-se.

A pagina academica é para mim, como para os que a viveram, riquissima de reminiscencias, e nem podia ser de outra fórma, pois abrange a melhor monção da existencia.

Não tomarei della porem sinão o que tem relação com esta carta.

Ao chegar a S. Paulo era eu uma criança de treze annos, commettida aos cuidados de um parente, então estudante do terceiro anno, e que actualmente figura com lustre na politica e na magistratura.{27}

Algum tempo depois de chegado, installou-se a nossa republica ou communhão academica á rua de S. Bento, esquina da rua da Quitanda, em um sobradinho acachapado, cujas lojas do fundo eram occupadas por quitandeiras.

Nossos companheiros foram dois estudantes do quinto anno; um delles já não é deste mundo; o outro pertence á alta magistratura, de que é ornamento. Naquelles bons tempos da mocidade, deleitava-o a litteratura, e era enthusiasta do Dr. Joaquim Manoel de Macedo que pouco havia publicara o seu primeiro e gentil romance—A Moreninha.

Ainda me recordo das palestras em que o meu companheiro de casa fallava com abundancias de coração em seu amigo e nas festas campestres do romantico Itaborahy, das quaes o jovem escriptor era o idolo querido.

Nenhum dos ouvintes bebia esses pormenores com tamanha avidez como eu, para quem eram elles completamente novos. Com a timidez e o acanhamento de meus treze annos, não me animava á intervir na palestra; escutava á parte; e por isso ainda hoje tenho-as gravadas em minhas reminiscencias, á estas scenas do viver escholastico.

Que extranho sentir não despertava em meu coração adolescente a noticia dessas homenagens{28} de admiração e respeito tributados ao joven author da Moreninha! Qual regio diadema valia essa aureola de enthusiasmo á cingir o nome de um escriptor?

Não sabia eu então que em meu paiz essa luz, que dizem gloria, e de longe se nos affigura radiante e esplendida, não é sinão o baço lampejo de um fogo de palha.