Vistos de longe, e atravez da razão, esses arremedos de erudicção, arranjados com seus remendos alheios, nos parecem ridiculos; e todavia é esse jogo de imitação que primeiro imprime ao espirito a flexibilidade, como ao corpo o da gymnastica.

Em 1845 voltou-me o prurido de escriptor; mas esse anno foi consagrado á mania que então grassava de baironisar. Todo estudante de alguma imaginação queria ser um Byron; e tinha por destino inexoravel copiar ou traduzir o bardo inglez.

Confesso que não me sentia o menor geito para essa transfusão; talvez pelo meu genio taciturno e concentrado, que já tinha em si melancolia de sobejo, para não carecer desse emprestimo. Assim é que nunca passei de algumas peças ligeiras, das quaes não me figurava heróe e nem mesmo author; pois divertia-me em escrevel-as com o nome de Byron, Hugo, ou Lamartine nas paredes de meu aposento á rua de S. Thereza, onde alguns camaradas d'aquelle tempo, ainda hoje meus bons amigos, os Drs. Costa Pinto e José Brusque, talvez se recordem de as terem lido.

Era um desacato aos illustres poetas attribuir-lhes versos de confecção minha; mas a brocha do caiador, incumbido de limpar a casa pouco{34} tempo depois de minha partida, vingou-os desse innocente estratagema, com que nesse tempo eu libava a delicia mais suave para o escriptor: ouvir ignoto o louvor de seu trabalho.

Que satisfação intima não tive eu, quando um estudante, que era então o inseparavel amigo de Octaviano e seu irmão em lettras, mas hoje chama-se o Barão de Ourem, releu com enthusiasmo uma dessas poesias, seduzido sem duvida, pelo nome do pseudo-author! É natural que hoje nem se lembre desse pormenor; e mal saiba que de todos os cumprimentos que depois recebi de sua cortezia, nenhum valia aquelle expontaneo movimento.

Os dois annos seguintes pertencem á imprensa periodica. Em outra occasião escreverei esta, uma das paginas mais agitadas da minha adolescencia. Dahi datam as primeiras raizes de jornalista; como todas as manifestações de minha individulidade, essa tambem iniciou-se no periodo organico.

O unico homem novo e quasi extranho que nasceu em mim com a virilidade, foi o politico. Ou não tinha vocação para essa carreira, ou considerava o governo do estado coisa tão importante e grave, que não me animei nunca a ingerir-me nesses negocios. Entretanto eu sahia de uma familia para quem a politica era uma religião, e onde se haviam{35} elaborado grandes acontecimentos de nossa historia.

Fundamos, os primeirannistas de 1846, uma revista semanal sob o titulo—Ensaios Litterarios.

Dos primitivos collaboradores desse periodico, saudado no seu apparecimento por Octaviano e Olimpio Machado, já então redactores da Gazeta Official, falleceu ao terminar o curso o Dr. Araujo, inspirado poeta. Os outros ahi andam dispersos pelo mundo. O Dr. José Machado Coelho de Castro é presidente do Banco do Brazil; o Dr. João Guilherme Whitaker é juiz de direito em S. João do Rio Claro; e o conselheiro João de Almeida Pereira, depois de ter luzido no ministerio e no parlamento, repousa das lides politicas no remanso da vida privada.

VI