Foi somente em 1848 que resurgiu em mim a veia do romance.
Acabava de passar dois mezes em minha terra natal. Tinha-me repassado das primeiras e tão fagueiras recordações da infancia, alli nos mesmos sitios queridos onde nascera.{36}
Em Olinda onde estudava meu terceiro anno e na velha bibliotheca do convento de S. Bento á ler os chronistas da era colonial; desenhavam-se á cada instante na tela das reminiscencias, as paysagens do meu patrio Ceará.
Eram agora os seus taboleiros gentis; logo apoz as varzeas amenas e graciosas; e por fim as matas seculares que vestiam as serras como a ararroia verde do guerreiro tabajara.
E atravez destas tambem esfumavam-se outros paineis, que me representavam o sertão em todas as suas galas de inverno, as selvas gigantes que se prolongam até os Andes, os rios caudalosos que avassalam o deserto, e o magestoso S. Francisco transformado em um oceano, sobre o qual eu navegara um dia.
Scenas estas que eu havia contemplado com olhos de menino dez annos antes, ao atravessar essas regiões em jornada do Ceará á Bahia; e que agora se debuxavam na memoria do adolescente, e coloriam-se ao vivo com as tintas frescas da palheta cearense.
Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto do Guarany ou de Iracema, fluctuava-me na fantasia. Devorando as paginas dos alfarrabios de noticias coloniaes, buscava com soffreguidão um thema para o meu{37} romance; ou pelo menos um protogonista, uma scena e uma epocha.
Recordo-me de que para o martyrio do Padre Francisco Pinto, morto pelos Indios do Jaguaribe, se volvia meu espirito com predilecção. Intentava eu figural-o na mesma situação em que se achou o Padre Anchieta, na praia de Iperoig; mas succumbindo afinal á tentação. A lucta entre o apostolo e o homem, tal seria o drama, para o qual de certo me falleciam as forças.
Actualmente que, embora em scena diversa, já tratei o assumpto em um livro proximo á vir á lume; posso avaliar da difficuldade da empreza.
Subito todas aquellas locubrações litterarias apagaram-se em meu espirito. A molestia tocara-me com sua mão descarnada; e deixou-me uma especie de terror da solidão em que tanto se deleitava o meu espirito, e onde se embalavam as scismas e devaneios de fantasia. Foi quando desertei de Olinda, onde só tinha casa de estado, e acceitei a boa hospitalidade de meu velho amigo Dr. Canarim, então collega de anno e um dos seis da colonia paulistana, á que tambem pertenciam o conselheiro Jesuino Marcondes e o Dr. Luiz Alvares.