Dormiram as lettras, e creio que tambem a sciencia, um somno folgado. De pouco se carecia{38} para fazer então em Olinda um exame soffrivel e obter a approvação plena. Em Novembro regressei á Côrte com a certidão precisa para a matricula do 4º anno. Tinha pois cumprido o meu dever.
Nessas ferias, emquanto se desenrolava a rebellião de que eu vira o assomo e cuja catastrophe chorei com os meus, refugiei-me da tristeza que envolvia nossa casa, na litteratura amena.
Com as minhas bem parcas sobras, tomei uma assignatura em um gabinete de leitura que então havia á Rua da Alfandega, e que possuia copiosa collecção das melhores novellas e romances até então sahidos dos prelos francezes e belgas.
Nesse tempo, como ainda hoje, gostava do mar; mas naquella idade as predilecções têm mais vigor e são paixões. Não sómente a vista do oceano, suas magestosas perspectivas, a magnitude de sua criação, como tambem a vida maritima, essa temeridade do homem em lucta com o abysmo, me enchiam de enthusiasmo e admiração.
Tinha em um anno atravessado o oceano quatro vezes, e uma dellas no brigue-escuna Laura que me transportou do Ceará ao Recife com uma viagem de onze dias, á vela. Essas impressões recentes alimentavam a minha fantasia.
Devorei os romances maritimos de Walter{39} Scott e Cooper, um apoz outro; passei aos do Capitão Marryat e depois á quantos se tinham escripto desse genero, pesquiza em que me ajudava o dono do gabinete, um francez, de nome Cremieux, se bem me recordo, o qual tinha na cabeça toda a sua livraria.
Li nesse decurso muita cousa mais: o que me faltava de Alexandre Dumas e Balzac, o que encontrei de Arlincourt, Frederico Soulié, Eugénio Sue e outros. Mas nada valia para mim as grandiosas marinhas de Scott e Cooper e os combates heroicos de Marryat.
Foi então, fazem agora vinte e seis annos, que formei o primeiro esboço regular de um romance, e metti hombros á empreza com infatigavel porfia. Enchi rimas de papel que tiveram a má sorte de servir de mecha para accender o cachimbo.
Eis o caso. Já formado e praticante no escriptorio do Dr. Caetano Alberto, passava eu o dia, ausente de nossa chacara á rua do Maruhy n. 7 A.
Meus queridos manuscriptos, o mais precioso thesouro para mim, eu os trancara na commoda; como, porém, tomassem o lugar da roupa, os tinham, sem que eu soubesse, arrumado na estante.