D'ahi, um desalmado hospede, todas as noites{40} quando queria pitar, arrancava uma folha, que torcia á modo de pavio e accendia na vela. Apenas escaparam ao incendiario alguns capitulos em dois canhenhos, cuja lettra miuda á custo se distingue no borrão de que a tinta, oxydando-se com o tempo, saturou o papel.

Tinha esse romance por titulo—Os Contrabandistas. Sua feitura havia de ser consoante á inexperiencia de um moço de 18 annos, que nem possuia o genio precoce de Victor Hugo, nem tinha outra educação litteraria, senão essa superficial e imperfeita, bebida em leituras á esmo. Minha ignorancia dos estudos classicos era tal, que eu só conhecia Virgilio e Horacio, como pontos difficeis do exame de latim, e de Homero apenas sabia o nome e a reputação.

Mas o traço dos Contrabandistas, como o gizei aos 18 annos, ainda hoje o tenho por um dos melhores e mais felizes de quantos me sugeriu a imaginação. Houvesse edictor para as obras de longo folego, que já essa andaria á correr mundo, de preferencia á muitas outras que dei á estampa nestes ultimos annos.

A variedade dos generos que abrangia este romance, desde o idylio até a epopéa, era o que sobretudo me prendia e agradava. Trabalhava, não pela ordem dos capitulos, mas destacadamente{41} esta ou aquella das partes em que se dividia a obra. Conforme a disposição do espirito e a veia da imaginação, buscava entre todos o episodio que mais se moldava ás idéas do momento. Tinha para não perder-me nesse dedalo o fio da acção que não cessava de percorrer.

Á estas circumstancias attribuo ter o meu pensamento, que eu sempre conheci avido de novidade, se demorado nesse esboço por tanto tempo; pois, quatro annos depois, já então formado, ainda era aquelle o thema unico de meus tentamens no romance; e si alguma outra idéa despontou, foi ella tão pallida e ephemera que não deixou vestigios.

VII

Eis-me de repente lançado no turbilhão do mundo.

Ao cabo de quatro annos de tirocinio na advocacia, a imprensa diaria, na qual apenas me arriscara como folhetinista, arrebatou-me. Em fins de 1856 achei-me redactor chefe do Diario do Rio de Janeiro.

É longa a historia dessa lucta, que absorveu cerca de tres dos melhores annos de minha mocidade.{42} Ahi se acrisolaram as audacias que desgostos, insultos, nem ameaças conseguiram quebrar até agora; antes parece que as afiam com o tempo.

Ao findar o anno, houve idéa de offerecer aos assignantes da folha, um mimo de festa. Sahiu um romancete, meu primeiro livro, se tal nome cabe á um folheto de 60 paginas.