Escrevi Cinco minutos em meia duzia de folhetins que iam sahindo na folha dia por dia, e que foram depois tirados em avulso sem nome do author. A promptidão com que em geral antigos e novos assignantes reclamavam seu exemplar, e a procura de algumas pessoas que insistiam por comprar a brochura, somente destinada á distribuição gratuita entre os subscriptores do jornal; foi a unica, muda mas real, animação que recebeu essa primeira prova.

Bastou para suster a minha natural perseverança. Tinha leitores e expontaneos, não illudidos por falsos annuncios. Os mais pomposos elogios não valiam, e nunca valerão para mim, essa silenciosa manifestação, ainda mais sincera nos paizes como o nosso de opinião indolente.

Logo depois do primeiro ensaio, veiu a Viuvinha. Havia eu em epocha anterior começado este romancete, invertendo a ordem chronologica{43} dos acontecimentos. Deliberei porem mudar de plano, e abri a scena com o principio da acção.

Tinha eu escripto toda a primeira parte, que era logo publicada em folhetins; e contava aproveitar na segunda o primitivo fragmento; mas quando o procuro, dou pela falta.

Sabidas as contas, Leonel[[2]] que era então o encarregado da revista semanal, Livro do domingo, como elle a intitulou; achando-se um sabbado em branco pediu-me alguma coisa com que encher o rodapé da folha. Occupado com outros assumptos, deixei que buscasse entre os meus borrões. No dia seguinte lograva elle aos leitores dando-lhes em vez da habitual palestra, um conto. Era este o meu principio de romance ao qual elle tinha posto, com uma linha de reticencias e duas de prosa, um desses subitos desenlaces que fazem o effeito de uma guilhotina litteraria.

Fatigado do trabalho da vespera, urgido pelas occupações do dia, em constantes tribulações, nem sempre podia eu passar os olhos por toda a folha.

Nesse domingo não li a revista, cujo teor já me era conhecido, pois sahira-me da pasta.

Imagine, como fiquei, em meio de um romance,{44} cuja continuação o leitor já conhecia oito dias antes. Que fazer? Arrancar do Livro do domingo, as paginas já publicadas? Podia-o fazer; pois o folhetinista não as dera como suas, e deixara entrever o author; mas fôra matar a illusão.

D'ahi veiu o abandono desse romancete, apezar dos pedidos que surgiam á espaços, instando pela conclusão. Só tres annos depois, quando meu amigo e hoje meu cunhado Dr. Joaquim Bento de Souza Andrade, quiz publicar uma segunda edição de Cinco Minutos, escrevi eu o final da Viuvinha, que faz parte do mesmo volume.

O desgosto que me obrigou a truncar o segundo romance, levou-me o pensamento para um terceiro, porem este já de maior folego. Foi o Guarany, que escrevi dia por dia para o folhetim do Diario, entre os mezes de fevereiro e abril de 1857, si bem me recordo.