No meio das labutações do jornalismo, oberado não somente com a redacção de uma folha diaria, mas com a administração da empreza, desempenhei-me da tarefa que me impuzera, e cujo alcance eu não medira ao começar a publicação, apenas com os dois primeiros capitulos escriptos.

Meu tempo dividia-se desta forma. Accordava por assim dizer na meza do trabalho; e escrevia o resto do capitulo começado no dia antecedente{45} para envial-o á typographia. Depois do almoço entrava por novo capitulo, que deixava em meio. Sahia então para fazer algum exercicio antes do jantar no Hotel de Europa. A tarde, até nove ou dez horas da noite, passava no escriptorio da redacção, onde escrevia o artigo edictorial e o mais que era preciso.

O resto do serão era repousar o espirito dessa ardua tarefa jornaleira, em alguma distração, como o theatro e as sociedades.

Nossa casa no Largo do Rocio n. 73 estava em reparos. Trabalhava eu n'um quarto do segundo andar, ao estrepito do martelo, sobre uma banquinha de cedro que apenas chegava para o mister da escripta; e onde a minha velha caseira Angela servia-me o parco almoço. Não tinha comigo um livro; e soccorria-me unicamente á um canhenho, em que havia em notas o fructo de meus estudos sobre a natureza e os indigenas do Brasil.

Disse alguem, e repete-se por ahi de outiva que o Guarany é um romance ao gosto de Cooper. Si assim fosse, haveria coincidencia, e nunca imitação; mas não é. Meus escriptos se parecem tanto com os do illustre romancista americano, como as varzeas do Ceará com as margens do Delaware.

A impressão profunda que em mim deixou Cooper foi, já lhe disse, como poeta do mar.{46} Dos Contrabandistas, sim, poder-se-hia dizer, apezar da originalidade da concepção, que foram inspiradas pela leitura do Piloto, do Corsario Vermelho, do Varredor do Mar etc. Quanto à poesia americana, o modelo para mim ainda hoje é Chateaubriand; mas o mestre que eu tive, foi esta explendida natureza que me envolve, e particularmente a magnificencia dos desertos que eu perlustrei ao entrar na adolescencia, e foram o portico magestoso por onde minh'alma penetrou no passado de sua patria.

D'ahi, desse livro secular e immenso, é que eu tirei as paginas do Guarany, as de Iracema, e outras muitas que uma vida não bastaria á escrever. D'ahi e não das obras de Chateaubriand, e menos das de Cooper, que não eram senão a copia do original sublime, que eu havia lido com o coração.

O Brasil tem, como os Estados Unidos, e quaesquer outros povos da America, um periodo de conquista, em que a raça invasora destróe a raça indigena. Essa lucta apresenta um caracter analogo, pela semelhança dos aborigenes. Só no Perú e Mexico differe.

Assim o romancista brasileiro que buscar o assumpto do seu drama nesse periodo da invasão, não póde escapar ao ponto de contacto com o{47} escriptor americano. Mas essa approximação vem da historia, é fatal, e não resulta de uma imitação.

Si Chateaubriand e Cooper não houvessem existido, o romance americano havia de apparecer no Brasil á seu tempo.