Annos depois de escripto o Guarany, reli Cooper afim de verificar a observação dos criticos e convenci-me de que ella não passa de um rojão. Não ha no romance brasileiro um só personagem de cujo typo se encontre o molde nos Mohicanos, Espião, Outario, Sapadores e Leonel Lincoln.

No Guarany derrama-se o lirismo de uma imaginação moça, que tem como a primeira rama o vicio da exhuberancia; por toda a parte a limpha, pobre de seiva, brota em flor ou folha. Nas obras do iminente romancista americano, nota-se a singeleza e parcimonia do prosador, que se não deixa arrebatar pela fantazia, antes a castiga.

Cooper considera o indigena sob o ponto de vista social; e na descripção dos seus costumes foi realista; apresentou-o sob o aspecto vulgar.

No Guarany o selvagem é um ideal, que o escriptor intenta poetisar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os chronistas, e arrancando-o ao ridiculo que sobre elle projectam os restos embrutecidos da quasi extincta raça.

Mas Cooper descreve a natureza americana,{48} dizem os criticos. E que havia elle de descrever, senão a scena do seu drama? Antes delle Walter Scott deu o modelo dessas paisagens á penna, que fazem parte da cor local.

O que se precisa examinar é si as descripções do Guarany têm algum parentesco ou affinidade com as descripções de Cooper; mas isso não fazem os criticos, porque dá trabalho e exige que se pense. Entretanto basta o confronto para conhecer que não se parecem nem no assumpto, nem no genero e estylo.

A edicção avulsa que se tirou do Guarany, logo depois de concluida a publicação em folhetim, foi comprada pela livraria do Brandão por um conto e quatro centos mil reis que cedi á empreza. Era essa edicção de mil exemplares; porem trezentos estavam truncados, com as vendas de volumes que se faziam á formiga na typographia. Restavam pois setecentos, sahindo o exemplar á 2$000.

Foi isso em 1857. Dois annos depois comprava-se o exemplar á 5$000 e mais, nos belchiores que o tinham á cavallo do cordel, embaixo dos arcos do Paço; d'onde o tirou o Xavier Pinto para sua livraria da rua dos Ciganos. A indifferença publica, sinão o pretencioso desdém da roda litteraria, o tinha deixado cahir nas pocilgas dos alfarrabistas.{49}

Durante todo esse tempo e ainda muito depois, não vi na imprensa qualquer elogio, critica ou simples noticia do romance, á não ser em uma folha do Rio Grande do Sul, como razão para a transcripção dos folhetins. Reclamei contra esse abuso que cessou; mas posteriormente soube que aproveitou-se a composição já adiantada para uma tiragem avulsa. Com esta anda actualmente a obra na sexta edição.

Na bella introducção que Mendes Leal escreveu ao seu Calabar, se extasiava ante os thezouros da poesia brasileira, que elle suppunha completamente desconhecidos para nós. «E tudo isto offerecido ao romancista, virgem, intacto, para escrever, para animar, para reviver.»