Apezar do desdem da critica de barrete, Luciola conquistou seu publico, e não somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um anno esgotou-se a primeira edicção de mil exemplares, e o Sr. Garnier comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguaes condicções outro perfil de mulher, que eu então gisava.
Por esse tempo fundou a sua Bibliotheca Brasileira, o meu amigo Sr. Quintino Bocayuva, que teve sempre um fraco pelas minha sensaborias litterarias. Reservou-me um de seus volumes; e pediu-me com que enchel-o. Alem de esboços e fragmentos, não guardava na pasta senão uns dez capitulos de romance começado.
Acceitou-os, e em boa hora os deu á lume; pois esse primeiro tomo desgarrado excitou alguma curiosidade que induziu o Sr. Garnier á edictar a conclusão. Sem aquella insistencia de Quintino Bocayuva, As Minas do Prata, obra de maior traço, nunca sahiria da chrisalida, e os capitulos já escriptos estariam fazendo companhia aos Contrabandistas.
De volta de S. Paulo, onde fiz uma excursão de saude, e já em ferias de politica, com a dissolução de 13 de Maio de 1863, escrevi Diva, que sahiu á lume no anno seguinte, edictada pelo Sr. Garnier.{53}
Foi dos meus romances,—e já andava no quinto, não contando o volume das Minas de Prata—o primeiro que recebeu hospedagem da imprensa diaria, e foi acolhido com os cumprimentos banaes da cortezia jornalistica. Teve mais: o Sr. H. Muzio consagrou-lhe no Diario do Rio um elegante folhetim, mas de amigo que não de critico.
Pouco depois (20 de junho de 1864) deixei a existencia descuidosa e solteira para entrar na vida da familia onde o homem se completa. Como a litteratura nunca fôra para mim uma Bohemia, e somente um modesto Tibur para o espirito arredio, este sempre grande acontecimento da historia individual não marca epocha na minha chronica litteraria.
A composição dos cinco ultimos volumes das Minas de Prata occupou-me tres mezes entre 1864 e 1865; porem a demorada impressão estorvou-me um anno, que tanto durou. Ninguem sabe da má influencia que tem exercido na minha carreira de escriptor, o atraso da nossa arte typographica, que um constante caiporismo torna em pessima para mim.
Si eu tivesse a fortuna de achar officinas bem montadas com habeis revisores, meus livros sahiriam mais correctos; a attenção e o tempo por mim despendidos em rever, e mal, provas truncadas, seriam melhor aproveitadas em compor outra obra.{54}
Para publicar Iracema em 1869 fui obrigado á edictal-o por minha conta; e não andei mal inspirado pois antes de dois annos a edicção extinguiu-se.
De todos os meus trabalhos deste genero nenhum havia merecido as honras que a sympathia e a confraternidade litteraria se esmeram em prestar-lhes. Alem de agasalhado por todos os jornaes, inspirou á Machado de Assis uma de suas mais elegantes revistas bibliographicas.