Até com sorpresa minha atravessou o oceano, e grangeou a attenção de um critico illustrado e primoroso escriptor portuguez, o Sr. Pinheiro Chagas, que dedicou-lhe um de seus ensaios criticos.
Em 1868 a alta politica arrebatou-me ás lettras para só restituir-me em 1870. Tão vivas eram as saudades dos meus borrões, que apenas despedi a pasta auri-verde dos negocios de estado, fui tirar da gaveta onde a havia escondido, a outra pasta de velho papelão, todo rabiscado, que era então a arca de meu thezouro.
Ahi começa outra idade de author, a qual eu chamei de minha velhice litteraria, adoptando o pseudonymo de senio, e outros querem seja a da decrepitude. Não me affligi com isto, eu que, digo-lhe com todas as veras, desejaria fazer-me escriptor posthumo, trocando de boa vontade os favores do presente pelas severidades do futuro.{55}
Desta segunda idade, que V. tem acompanhado, nada lhe poderia referir de novo; sinão um ou outro pormenor de psychologia litteraria, que omitto por não alongar-me ainda mais. Afóra isso, o resto é monotono; e não passaria de datas, entremeados da inexgotavel serrazina dos authores contra os typographos que lhes estripam o pensamento.
Ao cabo de vinte e dois annos de gleba na imprensa, achei afinal um edictor, o Sr. B. Garnier, que espontaneamente offereceu-me um contracto vantajoso em meiados de 1870.
O que lhe deve a minha collecção, ainda antes do contracto, terá visto nesta carta; depois, trouxe-me esta vantagem, que na concepção de um romance e na sua feitura, não me turva a mente a lembrança do tropeço material, que pode matar o livro, ou fazer delle uma larva.
Deixe arrotarem os poetas mendicantes. O Magnus Apollo da poesia moderna, o deus da inspiração e pae das musas deste seculo, é essa entidade que se chama edictor, e o seu Parnaso uma livraria. Si outr'ora houve Homeros, Sophocles, Virgilios, Horacios e Dantes, sem typographia nem impressor, é porque então escrevia-se nessa pagina immortal que se chama a tradicção. O poeta cantava; e seus carmes se iam gravando no coração do povo.{56}
Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um edictor, o bom livro é no Brasil e por muito tempo será para seu author, um desastre financeiro. O cabedal de intelligencia e trabalho que nelle se emprega, daria em qualquer outra applicação, lucro centuplo.
Mas muita gente acredita que eu me estou cevando em ouro, producto de minhas obras. E, ninguem ousaria acredital-o, imputam-me isso á crime, alguma cousa como sordida cobiça.
Que paiz é este onde forja-se uma falsidade, e para que? Para tornar odiosa e despresivel a riqueza honestamente ganha pelo mais nobre trabalho, o da intelligencia!