Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e pesado. Tem medo de chegar: e sente que sua alma vae soffrer, quando os olhos tristes e maguados da esposa, entrarem n'ella.
Ha muito que a palavra desertou seu labio secco; o amigo respeita este silencio, que elle bem entende. É o silencio do rio quando passa nos logares profundos e sombrios.
Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir do cão, que os chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Eram mui proximos á cabana, apenas occulta por uma lingua de mato. O christão parou calcando a mão no peito para soffrear o coração, que saltava como o poraquê.
—O latido de Japy é de alegria, disse o chefe.
—Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o guerreiro ausente a paz no seio da esposa solitaria, ou terá a saudado matado em suas entranhas o fructo do amor?
O christão moveu o passo vacillante. De repente, entre os ramos das arvores, seus olhos viram sentada, á porta da cabana, Iracema, com o filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o arrastou de um impeto, e toda a alma lhe estalou nos labios.—Iracema!...
A triste esposa e mãe sôabrio os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, poude erguer o filho nos braços, e apresental-o ao pae, que o olhava extactico em seu amor.
—Recebe o filho de teu sangue. Vieste a tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhe!
Pousando a creança nos braços paternos, a desventurada mãe desfalleceu como a jetyca se lhe arrancam o bulbo. O esposo vio então como a dôr tinha murchado seu bello corpo; mas a formosura ainda morava n'ella, como o perfume na flôr cabida do manacá.
Iracema não se ergueu mais da rêde onde a pousaram os afflictos braços de Martim. O esposo, em quem o amor renascera com o jubilo paterno, a cercou de caricias que encheram sua alma de alegria, mas não a poderam tornar á vida; o estame de sua flôr se rompera.