—Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. Quando o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que fala entro seus cabellos.
O labio emmudeceu para sempre; o ultimo lampejo despediu-se dos olhos baços.
Poty amparou o irmão em sua grande dôr. Martim, sentiu que um amigo verdadeiro é precioso na desventura; é como o outeiro que abriga do vendaval o tronco forte e robusto do ubiratan, quando o broca o copim.
O camocim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoriferas; e foi enterrado ao pé do coqueiro, á borda do rio. Martim quebrou um ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no jazigo de sua esposa. A jandaia pousada no olho da palmeira repelia tristemente:—Iracema!
Desde então os guerreiros pytiguaras que passavam perto da cabana abandonada e ouviam resoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam, com a alma cheia de tristeza, do coqueiro onde cantava a jandaia. E foi assim que veiu a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os campos onde serpeia o rio.
[XXXIII]
O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará, levando no fragil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quiz deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora.
O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da patria. Seria a predestinação de uma raça?
Poty com os seus guerreiros esperava na margem do rio. O christão lhe promettera voltar; todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar a vêr se branqueava ao longe a vela amiga.
Afinal volta Martim de novo ás terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, derramou-se por todo o seu ser um fogo ardente, que lhe requeimou o coração: era o fogo das recordações accesas.