—Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á cabana do Pagé.

—Extrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ella que guarda o segredo da jurema e o mysterio do sonho. Sua mão fabrica para o Pagé a bebida de Tupan.

O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.

A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a dança em torno a rude cadencia. O Pagé inspirado conduzia o sagrado tripudio e dizia ao povo crente os segredos de Tupan.

O maior chefe cia nação tabajara, Irapuam, descêra do mais alto da serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão contra o inimigo Pytiguara. Os guerreiros do valle festejam a vinda do chefe e o proximo combate.

O mancebo christão viu longe o clarão da festa, e passou além, e olhou o céo azul sem nuvens. A estrella morta que então brilhava sobre a cupula da floresta, guiou seu passo firme para as frescas margens do Acaraú.

Quando elle transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de Iracema surgiu. A virgem seguira o extrangeiro como a brisa subtil que resvalla sem murmurejar por entre a ramagem.

—Porque, disse ella, o extrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos Tabajaras?

O christão sentiu quanto era justa a queixa, e achou-se ingrato.

—Ninguem fez mal ao teu hospede, filha de Araken. Era o desejo de vêr seus amigos que o afastava dos campos dos Tabajaras. Não levava o presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema.