O velho Andira, irmão do Pagé, a deixou tombar, e calcou no chão, com o pé agil ainda e firme.

Pasma o povo tabajara da acção desusada. Voto de paz em tão provado e impetuoso guerreiro! É o velho heroe, que cresceu na sanha, crescendo nos annos, é o feroz Andira quem derrubou o tacape, nuncio da proxima lucta?

Incertos todos e mudos escutam:

—Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam cauim nas festas de Tupan, todos quantos guerreiros allumia agora a luz de seus olhos. Elle viu mais combates em sua vida do que luas lhe despiram a fronte. Quanto craneo de Potyuara escalpellou sua mão implacavel, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabello? E o velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus paes: mas alegrava-se quando elle vinha, e sentia com o faro da guerra a juventude renascer no corpo decrepito, como a arvore sêcca renasce com o sopro do inverno. A nação tabajara é prudente. Ella deve encostar o tacape da lucta para tanger o memby da festa. Celebra, Irapuam, a vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promette o banquete da victoria.

Desabriu emfim Irapuam a funda colera:

—Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, tica, velho morcego, porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da victima que dorme. Irapuam leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que elle inspira voa com o rouco som do boré. O Potyuara já tremeu ouvindo rugir na serra, mais forte que o ribombo do mar.

[VI]

Martim vae a passo e passo por entre os altos joaseiros que cercam a cabana do Pagé.

Era o tempo em que o doce aracaty chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo arido sertão. A planta respira; um dôce arrepio irriça a verde coma da floresta.

O christão contempla o occaso do sol. A sombra, que desce dos montes e cobre o valle, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos entes queridos que alli deixou. Sabe elle se tornará a vel-os algum dia?