Ainda a sombra cobre a terra. Já o povo selvagem colhe as redes na grande taba e caminha para o banho. O velho Pagé que velou toda a noite, falando ás estrellas, conjurando os máus espiritos da treva, entra furtivamente na cabana.
Eis retroa o boré pela amplidão do valle.
Travam das armas os rapidos guerreiros, e correm ao campo. Quando fôram todos na vasta ocára circular, Irapuam, o chefe, soltou o grito de guerra.
—Tupan deu á grande nação tabajara toda esta terra. Nós guardamos as serras, que manam os corregos, com os frescos ipús onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao barbaro Potyuara, comedor de camarão, as areias núas do mar, com os sêccos taboleiros sem agua e sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar a raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupan. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com elles os Potyuaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?
O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando a fronte, cobre o rubido olhar:
—Irapuam falou; disse.
O mais moço dos guerreiros avança:
—O gavião paira nos ares. Quando a nambú levanta, elle cae das nuvens e rasga as entranhas da victima. O guerreiro tabajara, filho da serra, é como o gavião.
Troa e retroa a pocema da guerra.
O joven guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandio. Girando no ar, rapida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão.