O Guarany e o Demonio familiar bastavam para assegurar a gloria de um escriptor; mas José de Alencar foi sempre consummido por uma sede insaciavel de escrever. Trabalhava com uma rapidez tal que isso prejudicava muitas vezes o acabado das suas obras, e impedia-o de lhes fazer attingir a perfeição, a que poderiam aliás ter chegado tanto quanto isso é possivel a obras humanas.

No theatro, pois, ao Demonio familiar e ao Verso e reverso seguiram-se o Credito, e os Jesuitas, drama que foi retirado de scena, porque o publico abandonou por tal forma o theatro em que elle se representava que diz um critico de Alencar, que talvez no Rio de Janeiro não fosse visto por um cento de pessoas. Esta ausencia do publico indignou muito José de Alencar que, publicando o drama, o precedeu de um prefacio em que diz que dava o drama á luz publica, só para que se visse que, se o theatro brazileiro não existia, não era por falta de bons auctores, nem de boas peças, mas sim pelo inqualificavel retrahimento do publico. Este accesso de vaidade não era permittido a um homem de tão verdadeiro merecimento como era José de Alencar. Effectivamente não tinha razão alguma: o drama os Jesuitas era detestavel, pueril, sem caracteres bem desenhados, sem acção logica, sem cousa alguma do que constitue verdadeiramente o merito de uma obra litteraria.

Não desanimou Alencar, e deu á scena as Azas de um Anjo, drama que se modelava um pouco pela Dama das Camelias, com a excepção de que no fim Margarida Gautier casa com Armand Duval. Um critico brazileiro muito divertido, que assigna com as iniciaes J. S. uma obra verdadeiramente inepta intitulada Manual de litteratura, diz a respeito das Azas de um Anjo o seguinte:

"É uma tocante oração em favor da perdida.

"No fim, sobretudo, no casamento d'esta com Luiz, nada ha de francez. É um traço de bondade e abnegação, proprio do caracter brazileiro, que o francez não approvaria."

Esperamos ainda assim que no Brazil não sejam extremamente vulgares esses actos de abnegação e de bondade, porque a geração que resultasse d'estes actos de bondade podia ser exquisitamente qualificada.

Mas o que é curioso é que, apesar d'esta peça ser a apotheose do caracter brazileiro, a auctoridade prohibiu que se representasse, e J.S. acha muito justa a prohibição. Já se vê que não quer que no theatro se ponham em relevo para ensinamento do publico a bondade e a abnegação tão proprias do caracter brazileiro.

José de Alencar acudiu em defeza da sua peça na imprensa, e outros escriptores o apoiaram. Effectivamente a pudibunda censura brazileira mostrou-se muito mais transigente com peças de um valor muito inferior ao das Azas de um Anjo.

A ultima peça de José de Alencar foi a Mai, representada em 1860.

N'esse mesmo anno era elle nomeado consultor do ministerio da justiça, e recebia a carta de conselho.