José de Alencar, ao passo que ia ganhando um brilhante nome litterario, não abandonava a politica nem descurava as cousas praticas da vida. Fôra, havia muito, nomeado professor de direito mercantil no Instituto Commercial do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo entrava como deputado na camara, pertencendo, porém, ao grupo conservador, em vez de se enfileirar, como o outro José Martiniano de Alencar, nas phalanges do partido liberal. Na sua carreira de empregado publico foi tambem, além de consultor do ministerio da justiça, director de secção.
A acção da politica no litterato sente-se na Guerra dos Mascates, romance em dois volumes, que elle publicou a bastante distancia de tempo um do outro, cujo enredo se trava em 1710 no tempo das desavenças dos moradores de Olinda com os do Recife, mas que tem apenas por intento fazer retratos contemporaneos com os nomes do seculo XVIII. Esta intenção era por tal forma transparente que no parlamento lh'o lançaram em rosto, porque effectivamente Alencar não se contentava com o desenho moral dos personagens, fazia o retrato physico tanto ao vivo que ninguem podia deixar de reconhecer o retratado. Assim o governador de Pernambuco D. Sebastião de Sousa Caldas é evidentemente o imperador D. Pedro II, o secretario Barbosa Lima é o visconde do Rio Branco, outro personagem é o marquez de S. Vicente, outro o barão de Inhomerim, etc., etc.
O retrato do imperador não está muito lisongeado, e não devia agradar ao personagem escolhido para modêlo, que se podia até considerar como injuriado positivamente. Comtudo, isso não obstou a que o imperador, em 1868, quando se formou o ministerio conservador, acceitasse a entrada de José Martiniano de Alencar para a pasta da justiça. Esteve porém pouco tempo no ministerio. Uma dissidencia no seio do partido conservador fêl-o sahir do governo, levando-o a ir sentar-se na camara ao lado dos dissidentes.
Continuando, porém, a apreciar o litterato, o romancista, citemos ainda dois dos seus melhores romances: o Gaúcho e Iracema. O caracter do gaúcho, que adora a sua egua Morena, que a entende, que lhe fala e que a escuta, está traçado com uma rara perfeição. Iracema é sobretudo um romancinho adoravelmente escripto. Nunca o estylo de Alencar attingiu tão delicada suavidade. Exhala-se de cada periodo como que o perfume das flores com que se elabora o mel das suas palavras. O sr. Pinheiro Chagas teve occasião de prestar a este livro a merecida homenagem. Fez porém algumas observações relativas á mania que teem alguns escriptores brazileiros, e um d'elles era Alencar, de pretenderem modificar as formas grammaticaes da lingua. Alencar entendeu dever responder na segunda edição do seu romance á critica do escriptor portuguez. Essa replica parecia-se um pouco com o prefacio dos Jesuitas. Manifestava uma grande vaidade realmente inadmissivel em escriptor de tão elevado merito, e mostrava um desprêso completo pelas regras mais elementares da philologia.
As Minas de prata passam por ser um dos seus menos bons romances; encerra comtudo algumas scenas primorosas. Queixam-se os paulistas de que as paizagens da sua provincia descriptas no Til, são perfeitamente phantasistas; Ubirajara, A pata da Gazella, O tronco do ipê, se não augmentaram a reputação do grande romancista não a prejudicaram tambem. O Sertanejo, muito criticado por alguns, parece-nos comtudo um dos seus bons romances. As paizagens que elle descreve são as paizagens da sua provincia natal, que elle conhece perfeitamente, e o typo do vaqueiro que ama em silencio a filha do seu patrão e que procura, com uma raiva intima, afastar todos aquelles que ella possa amar, está traçado com vigor.
Os seus romances de côrte, se assim nós podemos exprimir, são inferiores aos seus romances do sertão. Nem firmou alguns d'elles com o seu nome, Diva e Luciola, romances moldados pela comedia Azas de um Anjo tratam da rehabilitação de peccadoras; Cinco minutos, uma das suas primeiras obras e a Viuvinha são romances ligeirissimos, graciosamente desenhados; a Senhora encerra uma situação fortemente dramatica, mas mal desenvolvida. Trata-se de um homem de vis sentimentos, que despreza uma rapariga pobre que o adorava e despreza-a por ella ser pobre. Tempos depois, acceita o casamento com uma mulher deshonrada por outro homem, porque este lhe paga por uma avultada somma a venda do seu nome. Ora essa mulher é a tal que elle desprezara e que o seu desprêso arrojara pelo caminho da prostituição. O assumpto prestava-se, como vêem, ás mais dramaticas situações.
No genero de pamphletos, e obras politicas, etc., escreveu ainda José de Alencar, que sempre se mostrou hostil ao imperador, a imagem imperial, e as Cartas de Erasmo. Publicou em volume os seus discursos parlamentares de 1809, e os de 1871. É tambem sua, uma obra intitulada Estatistica da provincia do Ceará.
José de Alencar veiu á Europa em 1870. Voltando ao Brazil, foi inesperadamente colhido pela morte no anno de 1877, quando acabava de completar 48 annos, e quando se achava portanto na força da vida. A sua morte enluctou a litteratura brazileira e aquelles mesmos que tinham combatido Senio, pseudonymo querido de José de Alencar, foram os primeiros a render homenagem ao grande vulto, logo que elle desappareceu da scena publica.
(Do Diccionario Popular).