Este livro vae naturalmente encontral-o no seu pittoresco sitio da varzea, no doce lar, que povoa a numerosa prole, alegria e esperança do casal.

Imagino que é a hora mais ardente da sesta.

O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias nataes: as aves emmudecem; as plantas languem. A natureza soffre a influencia da poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o genio, as duas mais sublimes expressões do poder creador.

Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de rezes, que figuram a boiada. Era assim que eu brincava, ha quantos annos, em outro sitio, não muito distante do seu. A dona da casa terna e incansavel manda abrir o côco verde, ou prepara o saboroso creme do burity para refrigerar o esposo, que pouco ha recolheu de sua excursão pelo sitio, e agora repousa embalando-se na macia e commoda rêde.

Abra então este livrinho, que lhe chega da côrte imprevisto. Percorra suas paginas para desenfastiar o espirito das cousas graves que o trazem occupado.

Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se illudam as reminiscencias da infancia avivadas recentemente. Senão, creio que ao abrir o pequeno volume, sentirá uma onda do mesmo aroma silvestre e bravio que lhe vem da varzea. Derrama-o a briza que perpassou os espathos da carnauba e a ramagem das aroeiras em flôr.

Essa onda é a inspiração da patria que volve a ella, agora e sempre, como volve de continuo o olhar do infante para o materno semblante que lhe sorri.

O livro é cearense. Foi imaginado ahi, na limpidez d'esse céo de cristallino azul, e depois vasado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na varanda da casa rustica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rêde, entre os murmures do vento que crepita na arêa ou farfalha nas palmas dos coqueiros.

Para lá, pois, que é o berço seu, o envio.

Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos extranho, esquecido talvez dos poucos amigos, e só lembrado pela incessante desaffeição, qual sorte será a do livro?