Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor.

Araken decreta os sonhos a cada guerreiro, e destribue o vinho da jurema, que transporta ao céo o valente tabajara.

Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm ao deante de suas flechas paras e traspassarem nellas; fatigado alfim de ferir, cava na terra o bucan, e assa tamanha quantidade de caça, que mil guerreiros em um anno não acabarão.

Outro, fogoso em amores, sonha que as mais bellas virgens dos tabajaras deixam a cabana de seus paes e o seguem captivas do seu querer. Nunca a rêde de chefe algum embalou mais voluptuosas caricias, que elle as frue n'aquelle extase.

O heroe sonha tremendas lutas, e horriveis combates de que sahe vencedor, cheio de gloria e fama. O velho renasce, na prole numerosa, e como o secco tronco donde rebenta nova e robusta sebe, cobre-se ainda de flôres.

Todos sentem a felicidade tão viva e continua, que no espaço da noite cuidam viver muitas luas. As boccas murmuram; o gesto falla; e o Pagé, que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas desnudas.

Iracema, depois que offereceu aos guerreiros o licor de Tupan, sahio do bosque. Não permittia o rito que ella assistisse ao somno dos guerreiros e ouvisse falar os sonhos.

Foi d'ali direito á cabana, onde a esperava Martim.

—Toma as tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir.

—Leva-me onde está Poty, meu irmão.