Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o sol voltou, chegaram ás margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce a planicie enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganam a cada passo o peregrino, que vae seguindo o tortuoso curso: por isso foi chamado Mundahú.
Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes mares e as alvas praias onde as ondas murmurosas, ás vezes soluçam e outras raivam de furia, rebentando em frocos de espuma.
Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta immensidade; seu peito suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do Potengi, seu berço natal, onde elle vira a luz americana. Arrojou-se nas ondas e pensou banhar seu corpo nas aguas da patria, como banhara sua alma nas saudades d'ella.
Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de seu guerreiro o acalentasse.
Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a refeição.
[XXI]
Já descia o sol das alturas do céo.
Chegam os viajantes á foz do rio onde se criam em grande abundancia as saborosas trahiras; suas praias são povoadas pela tribu dos pescadores, da grande nação dos Pytiguaras.
Elles receberam os extrangeiros com a hospitalidade generosa, que era uma lei de sua religião; e Poty com o respeito que merecia tão grande guerreiro, irmão de Jacaúna, maior chefe da forte gente pytiguara.
Para repousar os viajantes, e acompanhal-os na despedida, o chefe da tribu recebeu Martim, Iracema e Poty na jangada, e abrindo a vela á brisa, levou-os até muito longe na costa. Todos os pescadores em suas jangadas seguiam o chefe e atroavam os ares com o canto de saudade, e os murmures do uraçá, que imita os soluços do vento.