—Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ella será mãe de teu filho!
—Filho, dizes tu? exclamou o christão em jubilo.
Ajoelhou ali e cingindo-o com os braços, beijou o ventre fecundo da esposa.
Quando se ergueu, Poty falou:
A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo, a primeira dá alegria; o segundo dá força: o guerreiro sem a esposa é como a arvore sem folhas nem dores; nunca ella verá o fructo: o guerreiro sem amigo é como a arvore solitaria no meio do campo que o vento embalança; o fructo d'ella nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce d'elle e faz seu orgulho; cada guerreiro que sahe de suas veias é mais um galho que leva seu nome ás nuvens, como a grimpa do cedro. Amado de Tupan é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; elle nada mais deseja senão a morte gloriosa.
Martim unio o peito ao peito de Poty.
—O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro branco é feliz, chefe dos Pytiguaras, senhores das praias do mar; e a felicidade nasceu para elle na terra das palmeiras, onde reacende a baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a côr do sol. O guerreiro branco não quer mais outra patria, senão a patria de seu filho e de seu coração.
Ao romper d'alva Poty partiu para colher as sementes de crajurú que dão a mais bella tinta vermelha, e a casca do angico de onde sae a cor negra mais lustrosa. De caminho sua flecha certeira abateu o pato selvagem que planeava nos ares: e elle arrancou das azas as longas penas. Subindo ao Mocoribe, rugiu a inubia. A refega que vinha do mar levou longe o ronco som. O buzio dos pescadores do Trahiry, e a trombeta dos caçadores do Soipé, responderam.
Martim banhou-se na agua do rio, e passeou na praia para secar o corpo ao vento e ao sol. Ao seu lado ia Iracema e apanhava o ambar amarello que o mar arrojava. Todas as noites a esposa perfumava seu corpo e a alva rede, para que o amor do guerreiro se deleitasse n'ella.
Voltou Poty.