—Iracema! Iracema!...
Ergueu ella os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda jandaia, que batia as azas, e arrufava as pennas com o prazer de vêl-a.
A lembrança da patria, apagada pelo amor, resurgiu em seu pensamento. Viu os formosos campos do Ipú; as encostas da serra onde nascera, a cabana de Araken; e teve saudades; mas ainda n'aquelle instante, não se arrependeu de os ter abandonado.
Seu labio gaseou em canto. A jandaia abrindo as azas, esvoaçou-lhe em torno e pousou no hombro. Alongando fagueira o collo, com o negro bico alisou-lhe os cabellos e beliscou a bocca vermelha como uma pitanga.
Iracema lembrou-se que tinha sido ingrata para a jandaia esquecendo-a no tempo da felicidade; e agora ella vinha para a consolar no tempo da desventura.
Essa tarde não voltou só á cabana. Durante o dia seus dedos ágeis teceram o formoso urú de palha que forrou da felpa macia da monguba para agasalhar sua companheira e amiga.
Na seguinte alvorada foi a voz da jandaia que a despertou. A linda ave não deixou mais sua senhora; ou porque depois da longa ausencia não se fartasse de a vêr, ou porque advinhasse que ella tinha necessidade de quem a acompanhasse em sua triste solidão.
[XXVII]
Uma tarde Iracema viu de longe dois guerreiros que avançavam pelas praias do mar. Seu coração palpitou mais apressado.
Instantes depois ella esquecia nos braços do esposo tantos dias de saudade, e abandono que passara na solitaria cabana. Outra vez sua graça encheu os olhos do christão; a alegria voltou a habitar em sua alma.