—Tu podes partir agora. Iracema seguirá teu rastro; chegando aqui verá tua seta, e obedecerá á tua vontade.
Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flôr da lembrança, o entrelaçou na haste da seta, e partiu alfim seguido por Poty.
Breve desappareceram os dois guerreiros entre as arvores. O calor do sol já tinha seccado seus passos na beira do lago. Iracema inquieta veio pela varzea seguindo o rastro do esposo até o tabuleiro. As sombras doces vestiam os campos quando ella chegou á beira do lago.
Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto.
—Elle manda que Iracema ande para traz, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá guarda sua flôr todo o tempo até morrer.
A filha dos Tabajaras retrahiu os passos lentamente, sem volver o corpo, nem tirar os olhos da seta de seu esposo, e tornou á cabana. Ahi sentada á soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até que o somno acalentou a dôr em seu peito.
Apenas alvorou o dia, ella moveu o passo rapido para a lagoa, e chegou á margem. A flecha lá estava como na vespera: o esposo não tinha voltado.
Desde então á hora do banho, em vez de buscar a lagoa da belleza, onde outrora tanto gostara de nadar; caminhava para aquella, que vira seu esposo abandonal-a. Sentava-se junto á flecha, até que descia a noite, então recolhia á cabana.
Tão rapida partia de manhã, como lenta voltava á tarde. Os mesmos guerreiros que a tinham visto alegre nas aguas da Porangaba, agora encontrando-a triste e só, como a garça viuva, na margem do rio, chamavam aquelle sitio da Mocejana, a abandonada.
Uma vez que a formosa filha de Araken se lamentava á beira da lagoa da Mocejana, uma voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba: