Ás vezes tambem nessa face lisa e polida desenhavão-se como em um espelho palacios encantados, mulheres bellas como as buris do propheta, virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

Assim decorreu meia hora, em que o silencio era apenas interrompido pelo estertor do moribundo e pelo trovão que rugia: depois houve uma calma sinistra; o peccador expirava impenitente.

Fr. Angelo levantou-se, arrancou o habito com um gesto desesperado, e pisou-o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com que trajou-se; tirou as armas do cadaver, apanhou o chapéo de feltro, e apertando ao peito o manuscripto, dirigio-se á porta.

Ouvião-se os passos de Nunes, que passeava fóra no alpendre.

O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta, deo-lhe uma inspiração. Tomou o habito, vestio-o sobre o seu novo trajo, e escondendo na manga o chapéo do aventureiro, cobrio-se com o largo capello; então abrio a porta e dirigio-se a Nunes.

Consumatum est, irmão! disse elle com um tom compungido.

—Deus tenha sua alma!

—Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu ultimo voto, que é uma reparação...

—De um grave peccado?

—De um crime, irmão. Dai-me luz; vou escrever a Fr. Diogo do Rosario, nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais novas de mim.