«Pery disse:

«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do sol, acompanhará a senhora na terra.

«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A pedra estalou e quiz fazer mal á senhora.

«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora ficasse triste, e voltasse ao céo.

«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, da nação Goytacaz, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és amigo.»

O indio terminou aqui a sua narração.

Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.

Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto reconhecia.

D. Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia.

Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous dias por D. Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem.